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“EUA e Israel elegem quem deve ser assassinado e fazem sua execução sumária”, diz especialista

 | Benjamin Netanyahu, Donand Trump e o general Qasem Soleimani (Montagem)
Benjamin Netanyahu, Donand Trump e o general Qasem Soleimani (Montagem)

Especialista em Oriente Médio e autor do livro “Os aiatolás e o receio da República Islâmica do Irã”, Renatho Costa, professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do Pampa (Unipampa), acredita que o assassinato do general Qasem Soleimani, comandante da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã, não chegará a um novo conflito mundial, como muitos temem, mas joga ainda mais pólvora no incendiário conflito que se estende por décadas no Oriente Médio.

Segundo ele, o assassinato de Soleimani é fruto de uma política imposta por Israel na região, que é copiada pelos Estados Unidos.

“Entendendo que os EUA e Israel simplesmente elegem quem deve ser assassinado e fazem sua execução sumária, nesse momento, o comandante da Quds (a Guarda Revolucionária Islâmica do Irã) foi o alvo. O que esperar do Irã? Como se trata de um atentado contra um militar iraniano, é certo que haverá algum revide. […] Não deve ser através de uma declaração de guerra ou algo semelhante, deve ser no mesmo nível que os Estados Unidos impuseram ao enfrentamento, ou seja, através de algum atentado ou algo semelhante”, diz.

Para Costa, no campo diplomático, o revide inevitável do Irã deve provocar um isolamento ainda maior do país no cenário mundial, principalmente na Europa, o que seria desejado por Donald Trump em sua campanha à reeleição.

Em relação ao Brasil, o especialista acredita que o conflito não trará grandes consequências, além do que já é previsto na questão econômica, com a elevação do preço do petróleo e possível redução de fornecimento do produto pelos concorrentes do Oriente Médio – que poderia até resultar em ganhos para o país.

“Exceto se houver um posicionamento mais efetivo contra o Irã – após seu revide ao ataque estadunidense – e ruptura de relações com o país, o que seria uma tragédia para certos setores da economia brasileira que exportam para o Irã. Ainda haveria uma variável preocupante, qual seja, como agiriam os simpatizantes do Hezbollah que vivem no Brasil, com a ruptura de relações entre Brasil e Irã? Creio que não chegaremos a esse ponto, mas é sempre algo a ser avaliado”, diz Costa.

Fórum: Quem era e qual função diplomática exercia o General Soleimani no Irã?
Renatho Costa: Ele era comandante da Força Quds, uma unidade da Guarda Revolucionária iraniana especializada na execução da política externa, mais especificamente, no planejamento militar do Irã. Um comandante muito próximo do Supremo Líder, aiatolá Khamenei. Aventava-se, nos bastidores, a possibilidade de Soleimani ser o próximo candidato à presidência do Irã. Quanto à Quds, como qualquer outro Estado que almeja exercer certa relevância/influência político-militar numa determinada região, o Irã também atua no intuito de estabelecer relações com grupos de apoio simpáticos ao governo dos aiatolás. Desde operações abertas até a concessão de apoio a grupos que se alinhem à Teerã, essa é a função da Força Quds. Alguns analistas apontam para o financiamento efetivo de organizações que lutem contra os Estados Unidos em arenas específicas, como na Síria, no Iraque ou no Iêmen. Não se descarta essa possibilidade, haja vista que o apoio faria parte da construção de uma rede que impediria que os Estados Unidos e seus aliados controlassem toda a região do Oriente Médio e isolassem o Irã. Assim, de modo claro, a Força Quds é uma unidade estratégica que atua no Oriente Médio para implementar a política externa iraniana e impedir que os Estados Unidos controlem a região. Para tanto, lançam mão de estratégia semelhante a todas as demais potências como se aliar a governos locais, patrocinar organizações paramilitares, espionagem, etc.

Fórum: O que o seu assassinato pelos EUA pode acarretar em questões diplomáticas e econômicas?
Renatho Costa: No que tange ao aspecto econômico, num primeiro momento, como o mercado do petróleo é bastante sensível às questões que ocorrem no Oriente Médio, é possível que tenhamos um pequeno aumento no barril, mas tudo dependerá da forma que essa situação se desdobrará. Se chegarmos a um conflito militar aberto entre EUA e Irã, o que acho improvável, nesses termos, então todo o Golfo será comprometido em sua produção de petróleo e teremos a explosão do preço do barril e as economias do mundo serão fortemente afetadas. Esse seria o efeito mais óbvio, mas é o que atinge mais rapidamente os países estrangeiros que dependem do petróleo da região. Mas não creio que vá ocorrer esse enfrentamento direto entre EUA e Irã, que faça com que tenhamos um cenário clássico de guerra, com EUA mobilizando suas tropas para invadir o Irã ou iniciando uma guerra nos mares do Golfo. Muito provavelmente o Irã será obrigado a revidar esse ataque – no Iraque mesmo ou contra a Arábia Saudita – e isso poderá fazer com que a pressão dos EUA contra os demais países europeus que ainda se mantém no acordo nuclear, leve a sua ruptura. Assim, a perspectiva diplomática do conflito ganha mais importância, pois desde o início do governo Trump, sua política externa vem atuando no sentido de isolar o Irã, então, com esse ataque, não somente teria conseguido impor uma grande perda ao idealizador e executor de parte da política externa iraniana, como provocado o isolamento ainda maior do Irã, que sempre foi o objetivo dos EUA. Somente não conseguiria o isolamento total, pois Rússia e China não se submetem às diretrizes dos EUA.

Fórum: Além de Soleimani, foi morto um líder da resistência iraquiana e há suspeitas da morte de um líder do Hezbollah. O que isso representa e quais as consequências podemos esperar?
Renatho Costa: A atuação dos EUA e Israel é semelhante, ambos utilizam a mais alta tecnologia para executar lideranças de países e organizações que são consideradas inimigas. Vemos com certa frequência os ataques que Israel faz contra Gaza e a quantidade de mortos que provoca, independentemente de serem civis ou militares. Os Estados Unidos atuam dessa maneira há anos, mantendo unidades específicas para executarem seus adversários. Pouco se importam com os “efeitos colaterais”. Enfim, entendendo que os EUA e Israel simplesmente elegem quem deve ser assassinado e fazem sua execução sumária, nesse momento, o comandante da Quds foi o alvo. O que esperar do Irã? Como se trata de um atentado contra um militar iraniano, é certo que haverá algum revide. Como mencionei anteriormente, não deve ser através de uma declaração de guerra ou algo semelhante, deve ser no mesmo nível que os Estados Unidos impuseram ao enfrentamento, ou seja, através de algum atentado ou algo semelhante. Daí, essa situação é ainda mais agravada com a morte dessas duas outras pessoas, pois reforça a “necessidade” de vingança por parte delas. O Iraque ainda conta com um contingente expressivo de estadunidenses, seja oficialmente ou em atividades encobertas, nesse sentido, esse poderia ser um alvo. Mas talvez o Irã necessite revidar no mesmo nível de sua perda, ou seja, no Líbano os estadunidenses estão mais vulneráveis e ali o Hezbollah poderia atuar. É claro que um ataque a bases estadunidenses na Arábia Saudita também não está descartado, mas creio que o ato será ainda mais emblemático, pois a maneira com que os EUA assassinaram Suleimani e depois “comemoraram” o feito, para os iranianos, requer uma resposta na mesma proporção. Não creio que o Irã vá expandir “sua vingança” para fora das fronteiras do Oriente Médio, pois seria muito arriscado, mas o governo iraniano acaba ficando sem possibilidade de responder de outra maneira que não seja militarmente. Então, seja utilizando o apoio de organizações iraquianas ou do Hezbollah, essa ação virá.

Fórum: Quais consequências esse conflito pode ter no Brasil, sob Bolsonaro?
Renatho Costa: Depende do posicionamento que o país assumir. Inicialmente, mantendo-se neutro – apesar do alinhamento ao governo Trump –, é pouco provável que o Brasil seja afetado. Penso no aspecto militar, evidentemente, pois, se considerarmos a possibilidade de que venha a ocorrer uma guerra na região do Oriente Médio, como trazido anteriormente, o preço do petróleo poderá se elevar muito. Daí, o Brasil poderá até vir a ter algum ganho com sua produção, mas dependerá do tempo que esse conflito durar e mesmo que países envolver-se-ão nele. A questão econômica seria o aspecto principal a afetar o Brasil. Exceto se houver um posicionamento mais efetivo contra o Irã – após seu revide ao ataque estadunidense – e ruptura de relações com o país, o que seria uma tragédia para certos setores da economia brasileira que exportam para o Irã. Ainda haveria uma variável preocupante, qual seja, como agiriam os simpatizantes do Hezbollah que vivem no Brasil, com a ruptura de relações entre Brasil e Irã? Creio que não chegaremos a esse ponto, mas é sempre algo a ser avaliado. Inicialmente, o que podemos dizer é que poderá afetar a economia do Brasil.

Fórum: Há risco de uma terceira Guerra Mundial como as pessoas temem?
Renatho Costa: Não creio que seja possível, pois, como mencionei anteriormente, não creio que os EUA partiriam para uma guerra convencional, com mobilização de tropas e invasão ao Irã. Não seria um tipo de ação que traria vantagens para os EUA e seus aliados. Principalmente para o Estado de Israel, que poderia ficar muito vulnerável frente ao início de uma guerra. A invasão ao Irã abriria a possibilidade para que o Hezbollah tensionasse a fronteira com Israel e a guerra automaticamente puxaria a Síria para o conflito. Atualmente, Assad recuperou o controle do país e seria um forte aliado contra Israel. Sem contar que o Iraque – que ainda não se recuperou plenamente do Estado Islâmico –, já teria de embarcar em outro conflito. Enfim, iniciar uma guerra contra o Irã é desencadear uma guerra muito mais ampla no Oriente Médio e que poderia se expandir para a Europa, seja com mais refugiados ou mesmo com ataques pontuais, então, não é interessante para os EUA. O interesse de Trump está na reeleição desse ano e não no início de uma guerra mundial, que poderia até prejudicá-la. Reforçar a campanha contra o Irã é interessante para Trump, pois faz com que parte da população estadunidense ratifique seu investimento em segurança, mas levar o país a uma guerra mundial não seria uma estratégia adequada para o momento, não é o tipo de discurso que o eleitorado de Trump busca nesse momento. Tampouco seria interessante para os países aliados europeus, que sentiriam o impacto de uma possível guerra mais diretamente.



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